Coronel aponta diferenças entre motociclistas e motoqueiros

 Se um elefante incomoda muita gente, um elefante numa moto incomoda muito mais. Os motociclistas chiaram e, com razão, que a campanha educativa do Detran "Animais no trânsito - não seja irracional" apresentou animais como elefantes, zebras, porcos e tartarugas pilotando motocicletas. Fica parecendo que os únicos animais do trânsito são os motociclistas que desprezam as regras do jogo. Sinto muito, mas foi uma bola fora do Detran.

O Detran, por sua vez, alega que não teve a intenção de ofender ninguém (confiraaqui).

 Aproveitando o gancho da polêmica (cartaz ao lado), o coronel Milton Corrêa da Costa nos brinda com um artigo no qual aponta as diferenças básicas entre motociclistas e motoqueiros, segundo sua visão de especialista em segurança no trânsito. Assíduo colaborador deste blog, o coronel Milton está numa fase ótima desde que começou a caminhar (perdeu dois quilos em dez dias, segundo revelou aos leitores do blog, na caixa de comentários). E não parece guardar qualquer trauma de "escovadas" de internautas. Tanto que voltou com a corda toda.

Aí vai o artigo dele:

"OS MOTOCICLISTAS E OS MOTOQUEIROS 


Milton Corrêa da Costa 


A motocicleta, em tempos de permanente agressão ao meio ambiente e de avassaladora saturação do espaço viário, tem sido uma excelente opção como prático e eficiente meio de transporte. No Estado do Rio de Janeiro a frota de motocicletas e motonetas já chega hoje a 450.000 veículos. Um crescimento de cerca de 500% nos últimos dez anos. Nesse contexto cresce também, cada vez mais, o número de grupos, clubes e associações de motociclistas com fins pacíficos, dando um verdadeiro exemplo da possibilidade de convivência harmônica entre o homem e o veículo.

São grupos de mútua-ajuda, com afetivos laços de amizade, onde a comunicação em sites de relacionamento, via Internet, se propaga constantemente. A promoção de eventos (vide a motociata do MOTO SAPIENS em homenagem à Cleyde Prado Maia), e encontros, principalmente na expansão do moto-turismo, em finais de semana, com a presença de familiares, tornou a tônica no fortalecimento de tais grupos, em reuniões no litoral oceânico, em áreas lacustres ou em regiões serranas. Não resta dúvida que o moto-turismo representa hoje um importante vetor no setor turístico brasileiro.

Aqui vale lembrar um exemplo de experiência positiva e de flagrante mudança de vida social vivenciada por meu cunhado, Antônio César, de 55 anos, irmão de minha esposa, ao decidir ingressar, há cerca de três anos, num grupo de motociclistas (MOTO SAPIENS). Sua vida mudou radicalmente para melhor. Ali conheceu, durante um evento com outros grupos, a mãe de seu filho mais novo, hoje com 3 meses. Antônio César conta também que remoçou 20 anos. O que é melhor, tornou-se um motociclista defensivo, primando agora pela conduta prudente no cumprimento às normas seguras de trânsito.

Para os que não têm ciência da dimensão de tais associações, vale esclarecer que os diferentes grupos de motociclistas possuem até regimento de conduta, em que se impõe comportamento exemplar de seus associados quando na direção de seus veículos, em rodovias e vias urbanas. Um ato imprudente cometido por algum integrante do grupo repercute negativamente sobre todos os demais integrantes. Ou o associado se submete democraticamente à regra de conduta estabelecida ou fatalmente será alijado do grupo. Há inclusive grupos mais antigos já com mais de 50 anos de existência, onde alguns de seus componentes já ultrapassaram os 80 anos de idade, mas que, na condução de suas históricas motocicletas, mais parecem verdadeiros garotões em plena juventude.

Esse é o lado bom da história. Infelizmente, já não podemos falar o mesmo dos chamados motoqueiros. É bom que se frise: motoqueiro não é motociclista. São condutores distintos. Ressalte-se que não é preciso pertencer a nenhuma associação ou clube para ser chamado de motociclista. Basta zelar pela conduta prudente no trânsito. Motoqueiros são os que vivem infringindo as leis de trânsito. Bebem e dirigem, transitam e transportam garupas sem o capacete de segurança, muitas vezes em excesso de velocidade, sem falar que desnecessariamente se deslocam em zigue-zague entre filas de carros, expondo-se a perigo. 
O resultado da imprudência está expresso nas estatísticas de acidentes, onde o traumatismo crânio-encefálico é a principal causa-mortis entre os motoqueiros.

Segundo especialistas em segurança de trânsito, um condutor de moto tem cinco vezes mais possibilidade de resultar gravemente ferido num acidente do que um motorista de um carro. Registre-se que dirigir sem o capacete regulamentar de segurança, ou sem faixas refletivas e viseiras ou os óculos de proteção (vide regulamentação na Resolução CONTRAN 203/06 ) constitui infração gravíssima de trânsito, com penalidade de multa no valor de R$191,54 e suspensão do direito de dirigir, além da freqüência obrigatória a curso de reciclagem de motoristas infratores. O código também só permite transportar nas garupas crianças com mais de 7 anos de idade, desde que tenha, nas circunstâncias, condições de cuidar de sua própria segurança.

O ideal seria que todos se espelhassem nos exemplos positivos dos verdadeiros motociclistas, ligados ou não a associações clubísticas, mas que fazem deste importante meio de transporte, uma fonte de respeito à cidadania e um forma segura de conduta educada no trânsito. Trânsito é meio de vida não de morte. 

Milton Corrêa da Costa é Tenente Coronel da PM do Rio e estudioso em segurança de trânsito. "

Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/post.asp?cod_post=130275